Chegamos ao Japão depois de quase seis meses ininterruptos de estrada pela Ásia. Desembarcamos em Osaka vindos de Seul, pegamos o trem e seguimos direto para Quioto. Quando a viagem é longa demais, o cansaço acumula de um jeito que a foto bonita da internet não mostra. O corpo pesa, a cabeça satura de novidades e o ritmo precisa desacelerar na marra. O Japão era um sonho antigo, mas a verdade é que a gente já estava no limite das forças físicas e emocionais. Essa honestidade com o próprio corpo moldou todo o nosso roteiro: escolhemos viver o país no modo lento, sem a obrigação de cumprir listas alheias, buscando pausas reais e conexões humanas.
Para quem sai do Brasil: o essencial antes de embarcar
- Isenção de visto (90 dias): Brasileiros com passaporte comum biométrico (com chip) não precisam de visto de turismo. Preencha apenas o formulário oficial no site Visit Japan Web alguns dias antes do voo para gerar os QR Codes de imigração e alfândega que agilizam o desembarque.
- Voos e a travessia de 12h de fuso: A rota até o outro lado do mundo dura entre 24 e 30 horas. Uma dica valiosa para o corpo aguentar é pesquisar trechos pelo Trip.com Voos com escala mais longa (stopover), tirando dois dias para respirar em uma cidade intermediária antes de desembarcar no Japão.
- Internet imediata: Fora dos grandes hotéis, quase ninguém fala inglês fluente e você vai depender do tradutor e do mapa a cada passo. Instale o eSIM da Airalo ainda no Brasil para pousar já com o celular conectado.
Quioto: o afeto de dois idosos e a redenção da viagem (4 Dias)
Chegamos em Quioto já passava das nove da noite. Na estação de trem, dois anfitriões de mais de setenta anos nos esperavam com aquela paciência generosa que só os mais velhos têm. A casa deles ficava bem em frente àquele templo famoso dos milhares de portais vermelhos, o Fushimi Inari. Eles falavam zero inglês, nós zero japonês, mas o aplicativo de tradução no celular deu conta de unir dois mundos distantes. A casa tinha quatro andares, cheia de quartos e muito maior do que parecia pela fachada discreta.
Ali começou a nossa redenção. Sem pedir absolutamente nada em troca, aqueles dois senhores se ofereceram para nos levar pela cidade no dia seguinte. Nos levaram ao Templo Dourado (Kinkaku-ji), ao templo das centenas de estátuas de Buda (Sanjūsangen-dō), à floresta de bambu de Arashiyama e nos apresentaram ao nosso primeiro sushi de esteira tradicional.
Numa das noites, caminhei pelo Fushimi Inari completamente sozinha. Não havia uma alma viva naqueles corredores vermelhos que durante o dia ficam apinhados de turistas disputando um centímetro de enquadramento. A quietude daquele santuário no escuro, ouvindo apenas o som do vento nas árvores, foi um dos momentos mais profundos de toda a minha passagem pela Ásia. Caminhando pela margem do rio na manhã seguinte, encontrei três flores de cerejeira abertas fora de época. Um detalhe miúdo e delicado que desarmou todo o peso do cansaço.
A melhor carne da minha vida e a cerimônia do chá
A melhor comida da viagem, e com folga a melhor da minha vida inteira como cozinheira, não aconteceu em nenhum restaurante estrelado. Aconteceu na sala de estar daquela casa.
Nossos anfitriões montaram um yakiniku na mesa, aquele churrasco japonês preparado no centro da sala, grelhando legumes frescos no calor suave. Para essa noite, eles compraram uma carne de Kobe diretamente de uma pequena fazenda local da região, daquelas que não vendem para restaurantes nem para turistas; ela só atende a famílias da vizinhança.
Eu sou chef de cozinha, mas nunca fui daquelas pessoas enlouquecidas por carne vermelha. Só que quando fecho os olhos e me lembro daquela sala em Quioto, eu ainda consigo sentir a textura exata daquela carne na minha boca. Não existem palavras técnicas no vocabulário da gastronomia para descrever a maciez e a precisão com que aquela gordura se desfazia. Foi o ápice de tudo.
Além de nos abrir a casa e preparar esse banquete com afeto puro, nossa anfitriã era mestre de chá e nos presenteou com uma vivência emocionante: ela nos ensinou a cerimônia tradicional do chá japonês ali mesmo na sala. Assistir àqueles gestos milimétricos, calmos e cheios de reverência foi uma aula profunda de presença e generosidade. Quioto ainda nos entregou achados doces, como o donut com casquinha crocante de crème brûlée e recheio de custard, antes de sentirmos o contraste incômodo de caminhar pelas ruas de Gion e perceber o peso do turismo barulhento na rotina local.
A travessia no Shinkansen, o Suica Card e o alerta de malas
O Suica Card no celular: para andar de transporte público no Japão, a ferramenta definitiva é o cartão Suica (ou Pasmo). Se você tem iPhone, adicione o Suica digital direto na sua Apple Wallet antes de viajar e recarregue com seu cartão internacional em segundos. Você não precisa enfrentar filas para comprar cartão físico: basta encostar o telefone na catraca do metrô, trens locais e ônibus. Além do transporte, ele funciona como carteira digital para pagar compras rápidas em lojas de conveniência (7-Eleven, Lawson) e máquinas de bebidas nas ruas.
O trem-bala (Shinkansen): para cruzar entre Quioto e Tóquio, o trem-bala é uma aula de pontualidade e a compra de bilhetes online com antecedência é simples. Dica clássica: tente reservar o assento do lado direito rumo a Tóquio para tentar avistar o Monte Fuji (nós tentamos, mas o dia estava cinzento, pesado de nuvens, e o vulcão ficou só na imaginação).
Alerta sincero de bagagem: o famoso serviço japonês de envio de malas entre cidades (Takuhaibin) funciona com perfeição se você estiver indo de um hotel com recepção para outro. Se for ficar em Airbnb ou casa sem portaria, o anfitrião não tem como receber as malas antes. Prepare-se para carregar tudo nos trens.
Onde ficar: a lição que aprendi da pior forma
Em Tóquio, o maior erro que um viajante pode cometer é escolher hospedagem longe do transporte apenas pelo preço da diária. Caminhar 15 a 20 mil passos por dia é a rotina básica na cidade. Quando desembarcamos, tivemos que arrastar malas pesadas por mais de vinte minutos pelas calçadas residenciais até a acomodação, porque nosso Airbnb não tinha ninguém para receber antes e ficava afastado do centro. Uma economia que custou muito caro no desgaste das pernas no fim de cada noite.
Ao planejar hospedagens no Japão pelo Trip.com, priorize sempre hotéis colados nas estações da linha circular JR Yamanote (como Ginza, Shinjuku, Shibuya ou bairros mais calmos como Ueno). Em Quioto, procure ficar a poucos passos da estação central ou nos arredores tranquilos dos templos. Estar a três minutos da estação salva a sua viagem.
Tóquio: a cidade de vitrine versus os balcões que acolhem (10 a 12 Dias)
Tóquio foi o nosso contraponto. Ficamos mais de dez dias por lá e a cidade me cansou. Tóquio me pareceu uma cidade construída para o consumo ininterrupto: luzes piscando, compras em massa, multidões frenéticas e uma juventude correndo atrás do próximo estímulo em Shibuya. Eu não tinha espaço na mala, não viajo para comprar coisas e estava exausta de tanto ruído.
Comprei apenas o estritamente funcional: um suéter térmico na Uniqlo porque a temperatura despencou, lembranças pontuais para a família e pequenos sachês de xampu para a mala de mão. Entrei na famosa papelaria Itoya em Ginza, com seus sete andares dedicados ao design e ao papel artesanal, admirei a beleza de tudo e saí de lá com uma única cartela de adesivos.
O que me salvou em Tóquio, como sempre, foi a comida sem afetação nos pequenos balcões de bairro:
No bairro de Ginza, a fila pacífica na calçada me levou ao Ginhachi, onde comi um Kaisen Don com fatias de peixe de um frescor inacreditável sobre arroz morno. Eu nunca tinha sido fã de atum cru, mas a primeira garfada ali me fez ver que eu só não conhecia o atum de verdade.
A poucos passos dali, a fumaça acolhedora do Funamizaka Hakodate Ramen entregou um Shio Ramen quente e reconfortante para fugir do vento gelado, coroado pelo Yuzu Kosho, uma pastinha cítrica de pimenta e yuzu que explode no paladar.
Perto da estação de Tabata, encontrei um verdadeiro achado de bairro que só conheci porque estávamos hospedados exatamente naquela região: a pequena casa Asanoya. Fora de qualquer radar turístico, ela serviu um Katsudon suculento com porco crocante e ovo em caldo adocicado, em um salão com um silêncio cerimonioso tocado por senhores dedicados que cozinham com reverência.
Durante as caminhadas e passeios pela cidade, a parada obrigatória era o clássico sorvete Cremia na casquinha de biscoito amanteigado. E nos dias de correria, preguiça ou cansaço acumulado, a salvação eram as lojas de conveniência (7-Eleven, Lawson, FamilyMart) e os supermercados de bairro ou de estações de metrô, que aplicam descontos de 30% a 60% nas bandejas de comida fresca após as 20h.
A regra de ouro do Tax Free e o dinheiro em espécie
A regra que não pode faltar no Tax Free: o produto comprado com isenção de imposto não pode estar aberto, consumido ou utilizado dentro do Japão. A nova regra do governo acabou com a exigência daquelas sacolas plásticas lacradas na mala durante a viagem inteira, mas a regra central de que o item precisa sair intacto com você continua rigorosamente a mesma, caso a fiscalização peça para inspecioná-lo no aeroporto antes do despacho.
Dinheiro vivo na carteira: mesmo sendo o país mais tecnológico do planeta, pequenas portinhas, máquinas de ticket e templos ainda pedem ienes em espécie. Não passe sufoco em casas de câmbio: você pode sacar ienes vivos com facilidade nos caixas eletrônicos (ATMs) de qualquer loja 7-Eleven usando seus cartões internacionais.
De Tóquio, pegamos um voo com escala em Xangai e seguimos para Milão, encerrando nosso ciclo asiático antes de voltar para o Ocidente com uma certeza nítida: se eu voltaria a Tóquio? Talvez, mas só de passagem rápida. O lugar onde eu realmente quero me demorar e passar semanas é em Quioto, em Osaka e nos vilarejos do interior, onde o tempo corre no compasso das pessoas e não das vitrines.
Food Like a Hug