Passei 45 dias no Vietnã. Entrei pelo Sul, subi até o Norte e vivi de tudo um pouco: duas semanas de monções em Hanói, uma intoxicação alimentar com direito a soro na veia, um balé de motos que desafia a física e o melhor bún chả que já encostou na minha boca. No imaginário ocidental, a maioria só ouviu falar da guerra, mas o que eu encontrei ali foi a maior lição de resiliência, afeto e acolhimento que a Ásia me deu.
Menos é mais: o choque de 15 dias
Se você só tem duas semanas de férias, não tente cruzar o Vietnã de ponta a ponta. O país é longo, estreito e intenso. Tentar ver tudo em 15 dias só vai te deixar exausto em aeroportos e saguões de hotel.
Se o tempo for curto, escolha o Centro-Norte: gaste seus dias entre a calma de Hội An e a alma de Hanói. O Sul é fascinante, mas a riqueza cultural e gastronômica mais profunda da estrada mora do meio para cima.
- Visto obrigatório: Brasileiros precisam de e-Visa eletrônico de 90 dias (US$ 25 entrada única ou US$ 50 múltiplas) emitido pelo portal do governo antes do embarque.
- Passagem de saída: Eu entrei apenas com a passagem de ida e não tive problemas na imigração, mas o protocolo padrão recomenda ter um comprovante de saída para evitar atritos no check-in.
1. Sài Gòn e o balé caótico do Sul
Chegamos em Ho Chi Minh (a eterna Sài Gòn) vindos de Bali, em pleno mês de julho. O primeiro baque foi físico: um calor úmido, denso, que quase dá para mastigar. O segundo foi visual: uma cidade que lembra uma São Paulo caoticamente harmônica.
São milhares de motos elétricas cruzando as esquinas em todas as direções. Quase não existem semáforos, mas ninguém bate, ninguém buzina com raiva e o trânsito flui como um cardume em perfeita sintonia. Para atravessar a rua, a regra de ouro é simples: dê o primeiro passo, mantenha o ritmo constante e nunca recue, porque o fluxo de motos vai desviar de você com precisão cirúrgica.
Em qualquer portinha ou comércio que você pisa no Vietnã, a primeira coisa que acontece é um copinho de chá de jasmim fresco chegar à sua mão. É o abraço de boas-vindas do país. Foi ali no Sul que me apaixonei pelo bánh xèo: aquela panqueca dourada e estaladiça que você corta, enrola em folhas de papel de arroz com uma montanha de ervas frescas locais e mergulha no molho agridoce com pimenta, criando aquele contraste clássico entre o crocante, a gordura da chapa e o frescor verde.
Subir os nove andares do antigo edifício residencial dos anos 60, o The Cafe Apartments, e ver cada apartamento transformado em um café autoral com vista para a avenida foi a prova de que a juventude vietnamita sabe criar charme como ninguém.
2. O Museu da Guerra e a força das mulheres
Fiquei relutante durante dias antes de pisar no Museu dos Vestígios da Guerra. Sabia que a energia era densa e recusei passeios invasivos como os túneis de Củ Chi por puro respeito ao meu limite emocional.
O museu é um soco no estômago. Mostra a crueldade humana sem filtros. Saí de lá arrasada, mas, ao mesmo tempo, tomada por uma admiração indescritível. Como um povo consegue passar por tanta dor e reconstruir uma nação inteira com tamanha dignidade em tão pouco tempo?
Foi ali que comecei a entender a força colossal das mulheres vietnamitas. Foram elas que sustentaram as famílias, ergueram o comércio e mantiveram o país de pé após o conflito. Essa resiliência silenciosa não está nos livros de história dos gringos; ela está no olhar sereno de cada senhora que pilota uma grelha de carvão na calçada.
3. Nha Trang: o despertar das 5h e a lição do hospital
Pegamos um voo para Nha Trang para comemorar o aniversário do meu marido num hotel lindo à beira-mar. A cidade tem uma dinâmica fascinante com o oceano: os vietnamitas acordam às 5 horas da manhã para correr na areia, nadar e se exercitar. Às 8h30, quando o sol aperta, a praia esvazia completamente. Ninguém fica torrando no sol. Eles voltam para casa, vão trabalhar e a orla só renasce no fim de tarde.
Mas a viagem nos cobrou um preço alto. No segundo dia, uma intoxicação alimentar severa derrubou a nós dois. Foram seis dias de cama, febre e uma ida necessária ao hospital para tomar soro na veia e medicação pesada.
Seguro viagem não é opcional
Nunca, sob hipótese alguma, viaje para o Sudeste Asiático sem um seguro de saúde internacional. Quando a intoxicação alimentar bate ou o corpo pede hospital, o seguro não é gasto: é sanidade física e financeira.
Nós usamos e recomendamos a SafetyWing Nomad Insurance pela facilidade de ativar direto do celular, cobertura global e atendimento ágil sem burocracia.
Deslocamento, trens e a cilada de Da Nang
- Voos vs. Trem e Ônibus Leito: Eu fiz os deslocamentos mais longos de avião pela agilidade com conexões pelo Trip.com. Mas se você tiver tempo e quiser economizar, o trem noturno (Reunification Express) e os ônibus leito (sleeper buses) são opções muito confortáveis, limpas e uma experiência clássica de imersão.
- A Cilada da Ponte do Dragão: Em Da Nang, todo mundo fala do show de fim de semana em que a ponte cospe fogo e água. Minha experiência sincera: fuja. É um trânsito caótico para chegar e sair, uma multidão sufocante e a apresentação dura cinco minutos. Não compensa o desgaste.
- Consumo Consciente: Da Nang passa por uma gentrificação acelerada. Como viajantes, vale fazermos escolhas conscientes: gaste seu dinheiro nos cafés autorais e nos pequenos negócios familiares, evitando redes ocidentais que apagam a alma local.
- Internet de sobrevivência: No trânsito vietnamita, mapa na mão é mandatório. Instale um eSIM da Airalo antes do pouso para já descer conectado e pedir seu Grab no aeroporto sem dor de cabeça.
4. Hội An: nove dias em casa de família
Enquanto a maioria das pessoas faz apenas um bate-volta rápido saindo de Da Nang, nós decidimos passar nove dias inteiros hospedados numa guesthouse familiar. No térreo morava a família; no andar de cima ficavam os quartos.
Hội An é patrimônio da humanidade e parece saída de um conto antigo com suas paredes amarelas desgastadas pelo tempo, lanternas de seda e o rio que abraça a cidade. Alugamos uma motinha para circular com liberdade pelas vilas de pescadores e pelo museu de terracota, mas o coração da cidade bateu forte na mesa.
Foi lá que vivemos uma das experiências mais comoventes da viagem: o Family Restaurant. Um lugar que funciona literalmente na varanda e na cozinha de uma família. Enquanto a mãe pilota as panelas com um talento absurdo, as filhas pequenas recebem os clientes com uma doçura desarmante. A comida é fresca, afetiva e custa quase nada.
Outra parada imperdível e gratuita é a galeria do fotógrafo francês Réhahn (Precious Heritage Art Gallery Museum). É uma verdadeira aula de antropologia que reúne fotos documentais e trajes originais dos 54 grupos étnicos do Vietnã. Vale a visita e vale comprar um postal no final para apoiar a preservação desse acervo.
Roupas sob medida em Hội An
Hội An é conhecida mundialmente pelas roupas feitas sob medida em prazos recordes de 24 a 48 horas. Minha recomendação aqui é equilíbrio: não fique pechinchando agressivamente, porque o trabalho manual deles é minucioso e o preço já é muito acessível para o nosso padrão, mas também não feche na primeira loja que entrar.
Pesquise e compare sempre os mesmos critérios: tipo de tecido (linho puro, seda ou algodão), estrutura do acabamento interno e corte. Os valores variam bastante de uma vitrine para outra para exatamente o mesmo modelo, então vale circular com calma antes de bater o martelo.
5. Hanói: a chuva que não lavou o amor
Chegamos a Hanói debaixo de tempestades tropicais. Pegamos quase duas semanas de chuva constante e alertas de tufão que nos impediram de subir as montanhas de Sa Pa ou navegar em Ninh Bình. Mas sabe de uma coisa? Hanói foi a cidade que mais arrebatou meu coração em todo o Vietnã.
Ficamos num apartamento um pouco mais afastado e fazíamos caminhadas de 40 minutos até o Old Quarter sempre que o tempo abria. Hanói tem um ritmo poético. A vida acontece nas calçadas baixas, entre banquinhos de plástico vermelhos, tigelas de porcelana fumegantes e o chiado do carvão.
No Bún chả 41 Cửa Đông (da Bà Sâm) e no Phở Sướng, escondido num beco estreito, a técnica fala por si só. É a fumaça densa do carvão caramelizando a barriga de porco e as almôndegas no ponto exato, servidas num caldo límpido e equilibrado, ao lado de caldos de carne construídos lentamente com especiarias tostadas. Comida de rua feita por quem repete o mesmo gesto com maestria há décadas.
No fim de semana, a prefeitura fecha as ruas ao redor do lago Hoàn Kiếm para os carros, e a cidade vira um imenso parque familiar. Grupos de adolescentes e crianças abordam turistas educadamente para praticar inglês. Passei mais de vinte minutos conversando com um menininho de oito anos, com um inglês brilhante e um olhar curioso sobre o Brasil e o futebol.
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